Pois é...

Trecho extraído de um artigo de: Fernando Brito
A sagração dos idiotas
"Algumas vezes, desanimo.
O tempo pesa e nos faz procurar o que é mais confortável para o corpo e a mente doídos pelos anos.
Não vivo para lutar, porque não sou um selvagem.
A civilização tem, entre suas virtudes, permitir a contemplação, o encantamento, a tolerância.
Com os outros, sobretudo, porque se não sou um selvagem, sou capaz de amar além do que amam os animais: a si, a seu par, a sua prole, seu grupo, todos projeções de si mesmos.
Quando nos civilizamos, deixamos de competir para colaborar e é por isso que compreendo o capitalismo como a negação do processo civilizatório.
Também não vivo para ser dono, porque – ah, que bom o sic transit gloria mundi - não sou um selvagem que depende da defesa de seu território vital, a Lebensraum maldita do nazismo.
Mas sou um ser humano real, que convive com contas, supermercado, prestações, amores, desencontros e cinco malditos comprimidos cardíacos e correlatos, que todo dia faço força para lembrar e mais ainda para esquecer.
Sei que o mundo ideal – e olhe lá – só pode existir dentro de mim e de meus sonhos, assim mesmo corrompido pelo egoísmo.
Quando a gente envelhece, tende a se atribuir um excelência que não se tem, uma perfeição que não se alcançou, uma lucidez que é apenas um autoelogio.
Devo estar errado sobre muita coisa, portanto. O que é, aliás, uma das poucas certezas que tenho.
Das outras, apenas algumas, bem esquisitas nesse mundo de hoje.
Uma delas fui descobrir que aprendi ainda criança, lendo Monteiro Lobato – que pena que todos os meninos não o leiam mais – quando a boneca Emília “ensina” Hércules a vencer o gigante Anteu, rei da Líbia, a quem ninguém jamais batera em luta, mandando que o levantasse sobre sua hercúlea cabeça.
É que Anteu era filho de Gea, a Terra, e era pelos seus pés no chão que lhe vinham as energias invencíveis.
É por isso que nunca cri em arrogantes, em tecnocratas, em falsos sábios que não amavam e sentiam seu povo, porque ser um povo é o chão humano.
Manter-se ligado a ele não é, necessariamente, algo físico.
Mas são raros os privilegiados que conseguem fazê-lo vivendo nos círculos de poder e dinheiro."
Quem serão os raros privilegiados?
 

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