RIO DE JANEIRO


Panorama Carioca
Gilberto Scofield Jr. gils@oglobo.com.br

A má fase do governador

Passei o dia ontem recebendo relatos de cariocas assustados com a resposta de Polícia Militar/Batalhão de Choque a atos de vandalismo durante os protestos. Em todo o mundo, manifestações encontram resistência policial, algumas exageradas. Mas as forças de segurança no Rio parecem confundir cidadão com vândalo e fazer exibições de poder em áreas sem protestos que pedem ações cirúrgicas e bem pensadas.

O governador Sérgio Cabral insiste em não entender que PM e BPChoque precisam de estratégia e inteligência para lidar com situações de multidão em áreas/tempos de paz. Quando essas ações ocorriam em áreas de favela ou periferia, eram um horror somente para uma população que na verdade nunca recebeu a devida atenção dos demais cariocas. Quando ela começa a ocorrer em locais como Largo do Machado, Av. Delfim Moreira, Praça São Salvador, Lapa e até no Hospital Souza Aguiar, ela horroriza a própria classe média que colocou Sérgio Cabral no lugar que ele ocupa hoje por dois mandatos.
Acumulo comigo histórias escabrosas de gente acuada no Bar Brasil, crianças assustadas em pizzarias em Laranjeiras, idosos sufocados com gás em seus próprios apartamentos, gente baleada em bares da Lapa, jovens encurralados no Circo Voador. O sociólogo, cientista político e professor da UFRJ Paulo Baía vem participando das manifestações para estudar mais de perto o fenômeno.
— Uma multidão é uma entidade que hospeda vários grupos. No meio de manifestantes bem intencionados, detectei vândalos, gente ligada ao crime organizado, gente de vans ligada a milícias, e eu não descartaria a presença de pessoas ligadas à oposição ao governo, dispostas a causar tumulto para criar fatos políticos. Mas a reação policial é desproporcional aos atos de violência, porque a polícia não está acostumada a usar estratégia e inteligência para lidar com situações extremas. E o que acontece é um arrastão policial — diz.
Segundo Baía, todos os governadores estão perdendo cacife político por conta disso, e o fenômeno não é exclusivo do Rio. Mas, aqui, a perda de apoio da classe média encantada com o processo de pacificação orquestrado pelo secretário de Segurança, José Mariano Beltrame, está corroendo rapidamente o capital político de Cabral e do próprio Beltrame. E de quebra, encolhendo as chances de o governador fazer seu sucessor — o vice, Luiz Fernando Pezão — nas eleições de 2014. Os resultados de pesquisas do Datafolha sobre a queda de popularidade de Cabral e os tímidos percentuais de Pezão na corrida de 2014 são evidência disso.
E há outros desafios. O legado da Copa do Mundo e das Olimpíadas, também alardeado pelo governador, acabou corroído pelo superfaturamento na reforma do Maracanã e a falta de transparência na privatização de sua gestão, o que incomodou parte da população que mantém com o estádio uma relação quase amorosa. O Maracanã reformado virou uma espécie de templo da exclusão, apesar da — e por conta da — qualidade. Some-se a isso o estado precário da rede estadual de saúde e educação, o racha entre PT e PMDB no estado e a arrogância da frota de sete helicópteros, e temos a crise de Sérgio Cabral explicitada nas ruas.
Para mudar isso, é preciso bem mais do que discurso prometendo “coibir excessos de ambos os lados”.

 

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